Doença da Tireoide nos Olhos: Sintomas, Corticoides e Biológicos

Doença da Tireoide nos Olhos: Sintomas, Corticoides e Biológicos
Eduardo Sampaio 4 janeiro 2026 0 Comentários

A doença da tireoide nos olhos (TED), também chamada de ophthalmopatia de Graves ou orbitopatia tireoidiana, não é apenas um incômodo estético. É uma condição autoimune que pode levar à perda de visão se não for tratada a tempo. Ela acontece quando o sistema imunológico ataca os tecidos atrás dos olhos - músculos e gordura - causando inflamação, inchaço e acúmulo de líquido. Cerca de metade das pessoas com doença de Graves desenvolve TED, mas também pode aparecer em quem tem tireoide normal ou hipotireoidismo. A maioria dos casos ocorre em mulheres entre 40 e 60 anos, e fumar aumenta o risco em quase oito vezes.

Sintomas que você não pode ignorar

Muitos confundem os primeiros sinais da TED com cansaço ou alergia. Mas há sintomas específicos que não passam sozinhos. A sensação de areia nos olhos afeta 78% dos pacientes. A sensibilidade à luz, a dor atrás dos olhos ao movê-los, o vermelhidão e o inchaço das pálpebras são comuns. Cerca de um terço das pessoas desenvolvem proptose - os olhos parecem sair da órbita. E 28% têm visão dupla, porque os músculos oculares inchados não se movem juntos.

Na maioria dos casos (89%), ambos os olhos são afetados. Mas em 11%, apenas um lado se inflama, o que pode confundir o diagnóstico. O que diferencia TED de outras condições é a progressão. Os sintomas costumam piorar nos primeiros 6 a 24 meses - esse é o chamado fase ativa. Depois, entra na fase inativa, quando a inflamação para, mas os danos estruturais ficam. Nessa fase, os olhos podem permanecer proeminentes ou a visão dupla persistir, mesmo sem dor.

Como é feito o diagnóstico?

Não basta olhar para os olhos. O médico precisa juntar informações da tireoide com exames de imagem. Testes de sangue medem os anticorpos contra o receptor de TSH (TRAb). Níveis acima de 15 UI/L indicam risco alto de desenvolver TED. A tomografia ou ressonância magnética da órbita mostra quais músculos estão inchados: o reto inferior é o mais afetado (85%), seguido pelo medial (75%) e superior (65%).

Para saber se a doença está ativa, usam o Escore de Atividade Clínica (CAS). Se o score for 3 ou mais, a inflamação ainda está em andamento e precisa de tratamento imediato. Um paciente com olhos vermelhos, dor ao mover os olhos, inchaço e proptose recente tem um CAS alto. Isso muda tudo na abordagem.

Corticoides: o tratamento clássico

Os corticoides ainda são a base do tratamento para TED moderada a grave na fase ativa. A via intravenosa é a mais eficaz. A dose padrão é 500 mg de metilprednisolona por semana durante 6 semanas, depois 250 mg por semana por mais 6 semanas. Cerca de 60 a 70% dos pacientes melhoram com esse esquema - a proptose diminui, a dor some e a visão dupla melhora.

Porém, os efeitos colaterais são reais. Quem toma prednisona por via oral (0,4 a 0,8 mg/kg por dia) pode ganhar até 8 kg, desenvolver resistência à insulina ou perder densidade óssea. O risco de diabetes aumenta em 18% dos casos. Por isso, os médicos preferem a via intravenosa: menos efeitos sistêmicos, mas ainda assim com riscos. A dose total acumulada não deve passar de 5 gramas, ou pode haver dano hepático - ocorre em 2,3% dos casos.

Se você parar os corticoides muito cedo, a doença pode voltar. A taxa de recaída é de 25 a 30%. Por isso, o tratamento precisa ser bem monitorado. E mesmo com sucesso, muitos pacientes ainda ficam com alterações permanentes - daí a importância de agir cedo.

Curandeira mágica administra infusão de energia curativa enquanto anticorpos biológicos desintegram inflamação.

Biológicos: a nova geração de tratamento

Em 2020, a FDA aprovou o teprotumumabe (Tepezza®), o primeiro medicamento que ataca a causa da TED, não só a inflamação. Ele bloqueia o receptor IGF-1, que está superexpresso nos tecidos atrás dos olhos. Em estudos, 71% dos pacientes tiveram redução de proptose de pelo menos 2 mm - contra apenas 20% no grupo placebo. A visão dupla melhorou em 59% dos casos, contra 26% no placebo.

O tratamento é feito com 8 infusões, uma a cada 3 semanas. Cada dose custa cerca de US$ 5.000 nos EUA - o curso inteiro chega a US$ 360.000. No Brasil e em Portugal, o acesso é limitado por causa do preço e da burocracia. Cerca de 42% dos pacientes enfrentam negativas de seguro ou atrasos de até 47 dias para autorização.

Os efeitos colaterais incluem espasmos musculares (24%), alterações auditivas (11%) e aumento da glicose no sangue (8%). Mas comparado aos corticoides, os efeitos sistêmicos são menores. A satisfação dos pacientes com biológicos é de 74%, contra 58% com corticoides.

Outros biológicos estão em estudo. O satralizumabe (Enspryng®), um anticorpo contra IL-6, foi aprovado em 2023 e pode ser aplicado por injeção subcutânea - mais prático que infusões. O rituximabe e o tocilizumabe também são testados, mas ainda sem evidência forte o suficiente para serem padrão.

O que fazer se os medicamentos não funcionarem?

Se a inflamação passar e os olhos continuarem proeminentes ou a visão dupla persistir, a cirurgia pode ser a única opção. A descompressão orbitária remove parte do osso da órbita para dar espaço aos tecidos inchados. Reduz a proptose em 2 a 5 mm. Mas tem riscos: 15% dos pacientes desenvolvem visão dupla nova após a cirurgia, 8% têm sinusite e 0,5% perdem visão.

Para visão dupla leve, prismas nos óculos ajudam 60% das pessoas. Mas se o desalinhamento for maior que 15 dioptrias, a cirurgia dos músculos oculares (estrabismo) é necessária. Essa cirurgia é feita só na fase inativa, quando os músculos não estão mais inflamados.

Garota com óculos de prismas e árvore de pílula biossimilar, símbolo de parar de fumar no fundo.

Tratamentos complementares e cuidados diários

Para casos leves, o tratamento é mais simples. Colírios sem conservantes, como o ácido hialurônico a 0,15-0,3%, aliviam a sensação de areia e a secura. O uso de protetor solar e óculos escuros ajuda com a sensibilidade à luz.

A suplementação com selênio (200 mcg por dia) tem efeito modesto. Um estudo da Cochrane mostrou que melhora a qualidade de vida em 23% nos casos leves. Não cura, mas pode atrasar a progressão. É barato, seguro e recomendado para quem não tem acesso a corticoides ou biológicos.

E o mais importante: pare de fumar. Fumar não só aumenta o risco de desenvolver TED - também piora a resposta ao tratamento. Pacientes que param de fumar têm melhor resultado com corticoides e biológicos. É o único fator modificável que todos os especialistas concordam ser crucial.

Qual é o futuro do tratamento?

O mercado de TED está crescendo rápido. Em 2023, valia US$ 1,2 bilhão. Em 2030, deve chegar a US$ 4,7 bilhões. Isso porque o teprotumumabe domina o mercado - sozinho, responde por 92% das vendas de medicamentos para TED.

Estão desenvolvendo uma versão genérica (biossimilar) que deve custar 30 a 40% menos a partir de 2025. Isso pode abrir acesso para mais pacientes. Também há estudos em andamento combinando teprotumumabe com selênio - os primeiros resultados mostram 82% de resposta, melhor que o medicamento sozinho.

Em breve, talvez consigamos prever quem vai desenvolver TED antes mesmo de os sintomas aparecerem. Pesquisadores já identificam marcadores genéticos que aumentam o risco. Dentro de 5 anos, o tratamento pode ser personalizado: você toma o medicamento certo, na dose certa, porque seu perfil genético indica que vai responder melhor.

Hoje, 35% dos pacientes ainda acabam precisando de cirurgia, mesmo com tratamento. Isso mostra que ainda não temos a solução perfeita. Mas a mudança já começou. A TED deixou de ser uma condição que só se gerencia - e passou a ser uma que pode ser tratada de forma direcionada, com resultados reais e duradouros.

A doença da tireoide nos olhos é a mesma coisa que a doença de Graves?

Não exatamente. A doença de Graves é um distúrbio da tireoide que causa hipertireoidismo. A doença da tireoide nos olhos (TED) é uma complicação autoimune que afeta os tecidos ao redor dos olhos. Cerca de metade das pessoas com Graves desenvolve TED, mas TED também pode aparecer em quem tem tireoide normal ou hipotireoidismo. São condições relacionadas, mas não iguais.

O teprotumumabe cura a doença da tireoide nos olhos?

Não é uma cura, mas é o tratamento mais eficaz que temos para a fase ativa. Ele reduz a inflamação, diminui a proptose e melhora a visão dupla em grande parte dos pacientes. Muitos conseguem evitar cirurgias. Mas os efeitos não são permanentes para todos - alguns voltam a ter sintomas depois de anos. Estudos de longo prazo ainda estão em andamento para entender melhor a durabilidade.

Corticoides são seguros para usar em TED?

São eficazes, mas não são seguros a longo prazo. A via intravenosa tem menos efeitos colaterais que a via oral, mas ainda pode causar aumento de glicose, pressão alta, insônia e danos hepáticos se a dose total for muito alta. O tratamento é sempre temporário - usado apenas na fase ativa da doença. Depois, o médico reduz e interrompe a medicação. Pacientes com diabetes, hipertensão ou osteoporose precisam de cuidado extra.

Posso usar colírios comuns para aliviar os sintomas da TED?

Colírios comuns com conservantes podem piorar a irritação. O ideal são colírios sem conservantes, como o ácido hialurônico a 0,15-0,3%. Eles ajudam a lubrificar a superfície do olho e aliviam a sensação de areia, secura e ardência. São úteis para casos leves, mas não tratam a inflamação por trás dos olhos. Sempre use sob orientação médica.

Por que fumar piora a doença da tireoide nos olhos?

Fumar ativa e intensifica a resposta autoimune nos tecidos orbitários. Estudos mostram que fumantes têm até 7,7 vezes mais risco de desenvolver TED e respondem pior aos tratamentos. A nicotina e outras substâncias do cigarro estimulam células inflamatórias nos olhos. Parar de fumar não só reduz o risco de piora - também aumenta a chance de resposta positiva a corticoides e biológicos.

Existe tratamento natural para TED?

Não há tratamentos naturais que substituam medicamentos comprovados. Mas o selênio (200 mcg/dia) tem evidência moderada para ajudar em casos leves, melhorando a qualidade de vida. Alimentação saudável, controle do estresse e evitar fumo são fundamentais. No entanto, suplementos como iodo, alho ou ervas não são recomendados - podem piorar a disfunção da tireoide. Sempre converse com seu endocrinologista antes de usar qualquer suplemento.

Quando devo procurar um oftalmologista especializado em TED?

Se você tem doença de Graves e nota qualquer mudança nos olhos - vermelhidão, inchaço, dor, visão dupla ou olhos saltados - procure um oftalmologista com experiência em TED dentro de 2 semanas. O diagnóstico precoce e o início do tratamento nos primeiros meses são essenciais para evitar danos permanentes. Não espere os sintomas piorarem. Equipes multidisciplinares (endocrinologista + oftalmologista) são o padrão ouro no tratamento.